quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O Falcão Maltês



Não existe consenso entre alguns críticos e historiadores de cinema sobre o film noir. Uns consideram que, as obras com personagens moralmente ambíguos, retratos decadentes das grandes cidades, intriga policial e as famosas femme fatales (entre outras características), não se configuram como um gênero cinematográfico. Outros, afirmam que sim. Não importa. A verdade é que, durante as décadas de 40 e 50, nos Estados Unidos, alguns filmes foram produzidos com essa abordagem temática. Eles refletiam a maturidade de uma audiência que acabara de sair da grande depressão de 1929 – com a quebra da bolsa de valores – e clamava por obras mais densas. O precursor dessa leva foi o ótimo O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, EUA, 1941).

Na época da produção de O Falcão Maltês, o cinema ainda não estava completamente acostumado à idéia de contar histórias através de imagens. Talvez por ainda viver um estado de desenvolvimento ou pela sua forte ligação com a literatura, os filmes tendiam a ser muito verborrágicos; os personagens construíam diálogos longos e, muitas vezes, incisivos e divertidos. Esse é um dos méritos do filme de John Huston; um roteiro que abusa de um linguajar ágil e coloquial. O personagem interpretado por Humphrey Bogart é tão esperto quanto desbocado. Frases como “Não acreditei na sua história, mas sim nos seus 200 dólares” são ditas com encantadora espontaneidade ao longo da projeção.

Várias características de uma obra noir marcam presença neste filme. É importante, nesse quase-gênero cinematográfico, criar uma atmosfera moralmente densa e sombria da sociedade. Para isso, a direção de arte do filme dedicou-se em enfatizar ambientes sórdidos, como becos escuros e ruas apinhadas de carros e pessoas, filmadas em grande parte à noite. O filme também ganha na composição dos ambientes internos, onde boa parte da história se desenvolve. Em quase todas as cenas nesses locais, existe algumas garrafas de uísque, maços de cigarro e alguns móveis velhos; objetos que, nesse contexto, indicam certa decadência moral.

Outro destaque da produção vai para a fotografia. O filme noir tem, nesse departamento, uma forte ligação com os filmes expressionistas alemães das décadas de 20 e 30. Nos dois casos, existe ênfase na diferenciação claro/escuro, com grandes sombras compondo os locais. Em “Falcão Maltês”, graças a uma boa iluminação, as sombras estão presentes em quase todas as tomadas noturnas, aumentando a dramaticidade das cenas. Esse artifício também é usado nos personagens; iluminando-se ou não a face de algum em especial, obtêm-se um resultado de tensão desejado. Temos exemplos no filme, como quando um estranho rapaz segue o personagem principal ou quando o ator Humphrey Bogart tem se rosto iluminado em conversas importantes.

A história do filme se apresenta de forma simples, mas intricada o suficiente para receber – com boa dose de surpresa – as reviravoltas que a compõe. Uma estranha mulher (Mary Astor) entra no escritório dos detetives Sam Spade (Humphrey Bogart, excelente) e Miles Archer (Jerome Cowan), pedindo que eles sigam uma determinada pessoa. Nesse trabalho, o parceiro de Spade acaba assassinado. A partir daí, uma série de fatos bem elaborados o leva a uma intriga, envolvendo um grupo de bandidos e um estranho artefato; uma estátua de um falcão.

Essa estátua – que empresta seu nome ao título do filme – funciona como um artifício narrativo. Utilizando um termo cunhado pelo cineasta Alfred Hitchcock, seria um MacGuffin. Para Hitchcock, um MacGuffin é algo que impulsiona os personagens a agir, mas que não tem nenhum significado direto na história. É como o conteúdo nunca revelado da maleta em Pulp Fiction ou a última palavra proferida por Charles Kane (“Rosebud”), em Cidadão Kane. O falcão poderia nem aparecer durante o filme, não mudaria nada. Ele só aparece já perto do final, com o desfecho já delineado.

O ator Humphrey Bogart dá um show na pele de Sam Spade. Ele é um sujeito pra lá de desbocado, que vai lidando com os imprevistos da história de maneira espetacular. Ele não confia em nenhum dos personagens que aparecem ao longo do filme. Assim como espectador, o detetive vai descobrindo cada detalhe que circunda os assassinatos e a obsessão dos bandidos pela estátua do falcão. Sua maneira criativa de tratar com o inesperado rende ótimas cenas.

Um exemplo? Existem vários. Um deles acontece quando Spade é seguido por um estranho homem. Para despistá-lo, ele pára em frente a um prédio e aperta todas as campainhas disponíveis, na expectativa que alguém o deixe entrar. E assim acontece; enquanto o sujeito que o segue fica coçando a cabeça, querendo descobrir quem ele conhece naquele prédio. Depois de sair pelas portas do fundo do edifício, o detetive faz a volta e dá uma espiada no homem que está no seu encalço, rindo da inquietação que causou.

Outro detalhe interessante nessa obra-prima de John Huston é perceber como eles fizeram para criar empatia entre o público e o personagem de Humphrey Bogart. O detetive é falastrão, mantinha relações com a mulher do companheiro de trabalho e, em todos os momentos do filme que aparece investigando alguém, acaba extorquindo algum dinheiro deles. Trata-se, sem meias palavras, de um canalha. Mas um canalha tão atraente e irônico que acabamos torcendo por ele ao longo do filme. Com certas ressalvas, ele poderia ter sido o mentor do personagem de Robert Redford, em “Jogos de Espião”. Ambos andam por aí armados apenas com uma boa conversa e um sorriso encantador.

O Falcão Maltês foi uma adaptação do romance homônimo do escritor Dashiell Hammett e o seguiu praticamente à risca. Com tantas cenas memoráveis, serviu – sendo o filme de estréia de Huston – como uma alavanca na carreira do diretor e do protagonista, Humphrey Bogart, que talhou seu nome na história do cinema ao dar vida a personagens cínicos, sempre com um cigarro no canto da boca. O filme foi indicado em três categorias do Oscar e é reconhecido hoje, sem grande exagero, como uma das maiores películas da história da sétima arte.