domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sonhando Acordado





Sabe quando uma criança inventa de contar uma história longa? Eu tenho essa recordação vívida na minha memória, já que meus pais me mostraram recentemente uma fita cassete (!) com uma gravaçãozinha minha, contando a história de um episódio de “Thundercats”. Além de uma gagueira danada (ainda bem que superei isso), no meu relato faltava coerência. Eu conseguia passar sentimento, é verdade. Também um pouquinho de criatividade na narrativa, claro. Mas sentido? Passou longe e não mandou lembrança. Mas aí que está o brilho de uma história contada por uma criança: onde perde pela maneira não-convencional de narrar, ganha em empatia com os ouvintes, torna-se algo gostoso de ouvir.

Mas o que isso tem haver com o último filme de Michael Gondry, Sonhando Acordado (The Science of Sleep, EUA/França, 2006)? Muita coisa. É justamente nesse ponto, por encenar uma narrativa com toques criativos e simpáticos de uma criança-diretora que o filme estabelece um discurso único, além de caber com precisão cirúrgica numa obra sobre um adulto que ainda não amadureceu.

Gondry era diretor de videoclipes – e produziu obras inovadoras, como Army of Me, da cantora Björk –, de onde trouxe uma linguagem jovem para assuntos delicados, adultos. No seu segundo trabalho, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, que versa sobre os percalços de um relacionamento, Gondry trabalhou com o também criativo Charlie Kaufman (Adaptação e Quero Ser John Malkovich), mas ali estava um cineasta que já era capaz de se sustentar com as próprias pernas. E a confirmação veio no interessante Sonhando Acordado.

Por sinal, existem alguns pontos em comum entre esses dois últimos filmes de Gondry. Tanto em Brilho Eterno quanto em Sonhando Acordado, há um debate camuflado sobre o funcionamento do cérebro, da memória afetiva e do comportamento humano. Mas, nas duas obras, esses assuntos estão presentes apenas como pano de fundo para sustentar a discussão sobre outros temas. Ainda assim fazem bem o papel de encher o filme com um conteúdo interessante e que bate certo nas tramas.

A história desta película é simples, mas com pinceladas surreais: Stephane (Gael Garcia Bernal) é um ilustrador que volta para França, depois da morte do pai, para trabalhar numa loja de criação de calendários. A chatice do trabalho é quebrada quando ele conhece Stephanie (Charlotte Gainsbourg), sua vizinha, por quem acaba nutrindo uma estranha paixão.

A partir daí, sonho e realidade se juntam de tal maneira que se confundem, e confundem o espectador. Mas é uma confusão saudável; como falei no início, é como uma história contada por uma criança. Pode perder em sentido lógico e coerência, mas ganha em criatividade e afeição. Além disso, a narrativa tem também um tom de fantasia, que combina com a idéia inicial e adiciona bastante na análise da obra.

O filme se recusa ser de uma assimilação tranqüila, e essa dificuldade está incrustada no roteiro de forma inteligente. Ou seja, aqueles que estão acostumados a uma narrativa lógica, bem explicada, podem passar longe. A confusão começa já nos nomes dos protagonistas, praticamente idênticos. Isso acaba causando às vezes uma pequena falta de clareza.

A própria origem dos personagens serve como ingrediente para deixar essa aventura ainda mais louca. Entre o espanhol e o francês, Gondry construiu uma desculpa plausível para ainda jogar uma terceira língua; o inglês. Ou seja, nada menos que três idiomas são utilizados ao longo do filme. Complicação proposital e muito bem vinda, pensando na proposta do filme.

O estilo de Gondry possui um eco da linguagem de videoclipe. Ele constrói cenas picotadas, que condensam várias imagens ao mesmo tempo. Isso dá gás à narrativa, como nos sonhos malucos de Stephane. E é justamente na reprodução desses sonhos que o filme ganha. O protagonista é uma criança crescida, um sujeito com dotes criativos, que trouxe da infância junto ao pai um desejo de ser um inventor, de criar coisas maravilhosas – não pelo reconhecimento, mas para transformar o mundo num lugar mais interessante.

Os sonhos de Stephane são divertidos. Ele visita locais imaginários num mundo totalmente idealizado pela sua mente. E para o êxito da tradução dessas características no filme está um Gondry inspirado, que criou um clima íntimo e onírico, transformando os sonhos do protagonista em cenas visualmente atraentes e estilizadas, a partir de objetos comuns, do dia a dia, como papel celofane, caixa de ovos e papelão.

Em determinado momento, as vizinhas de Stephane mentem para ele, dizendo que são produtoras musicais. Depois, num de seus sonhos, ele tem a idéia de visitá-las no trabalho delas. Então, ele parte voando (isso é um sonho, ora!) e pára um prédio destruído, num lugar desolado, com pôsteres de músicos nas paredes e com o chão completamente coberto de vinis velhos. Ou seja, o inconsciente do protagonista sacou a mentira das meninas e criou um ambiente totalmente inóspito, demonstrando que elas não trabalham com isso. A piada visual é bem interessante.

Já em outra situação, Stephane redige uma carta para pedir desculpas à Stephanie. Daí, Gondry cria essa situação: Gael Garcia, dentro de uma caverna, recitando o texto, enquanto uma máquina de datilografar – que mais parece uma aranha gigante – compõe a carta. No final, o protagonista tem em mãos não uma folhinha, mas sim um enorme livro. Surreal. Esses detalhes estranhos e imprevisíveis que, normalmente povoam os sonhos, são apresentados no filme de forma criativa e bem-humorada.

O filme num todo é interessante, mas tem horas que pende para um resultado que simplifica demais. Os outros atores, além do par principal, não passam de caricaturas de seres humanos, que não se sustentam no mundo real. Guy trabalha na mesma empresa que Stephane. Ele não passa de um adulto viciado em sexo. O chefe do protagonista só aparece reclamando e dando bronca em seus empregados. A melhor amiga de Stephanie, Zoe, faz o papel daquelas mulheres que gostam de atiçar homens. Todos eles são muito horizontais, sem profundidade. Mas nada que atrapalhe na diversão despretensiosa do filme.

1 comentários:

Isabella disse...

nao sabia que tinha sido ele que produziu o clip de bjork :P
eu tava com tanto sono nesse filme que nem peguei a essencia direito :T foi chato isso pq o filme realmente pareceu muito bom! Hm.. depois eu tento ver denovo :* Bjo amor :*