
Os irmãos Coen são os donos de uma das mais consistentes carreiras do cinema atual. Desde sua inserção no âmbito cinematográfico, com Gosto de Sangue, em 1984, eles colecionam elogios tanto de críticos quanto de espectadores – algo raro e louvável. Isso pode ser creditado em parte à completa autonomia que eles têm na realização de seus filmes; como diretores de películas com aura de independentes, eles não precisam “responder” a nenhum produtor – assim, a marca autoral deles aflora de maneira intensa e sólida.
O nono longa-metragem dos irmãos, O Homem que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There, EUA, 2001), assinado por Joel Coen, com o roteiro de Ethan – na prática, as funções deles acabam se misturando – é um filme que, ao mesmo tempo de desenterra um gênero em desuso (o noir), conta com aspectos da narrativa que batem o ponto nas produções da dupla, de forma fluida e brilhante.
Os arquétipos mais comuns de um noir – detetives durões e loiras fatais – não fazem parte da história deste filme. Mas é inegável que o trabalho dos Coen emite o inconfundível aroma de um autêntico noir; isso porque o principal desse gênero está presente no trabalho, tanto na parte técnica (sombras, fumaça) quanto na temática (ambigüidade moral, traição). Em linhas gerais, o longa se configura como uma discreta obra-prima. Discreta porque passou despercebida por muita gente. Encontrar esse DVD nas lojas brasileiras, hoje, é um verdadeiro suplício. E obra-prima porque, para todos os departamentos cabe, sem ressalvas, uma gradação de “excelente”.
A começar pelo roteiro. O texto dos irmãos Coen é um primor; evoca, num primeiro momento, os melhores noir que tanto filmes quanto livros já produziram, transita de crimes simples a assassinatos, parando de vez em quando para dar uma palhinha em romances descabidos, com pitadas do mais puro nonsense – tudo isso sem jamais perder o ritmo. São situações que poderiam causar um imbróglio na narrativa, se os diretores fossem descuidados. Mas não é o caso, os Coen demonstram segurança em todas as reviravoltas apresentadas.
Trata-se de um texto muito bem elaborado, intricado até não poder mais. Alguém pode até achar os infames plot holes (buracos no roteiro, que deixam algum ponto da narrativa sem explicação), mas esses, se realmente existirem, são ínfimos e não perturbam o cerne do filme. Além disso, os diálogos são pra lá de afiados, à altura dos de Pacto de Sangue, clássico noir de Billy Wilder.
A fotografia é belíssima. Em outra homenagem silenciosa aos grandes noir, o diretor de fotografia Roger Deakins optou por um preto e branco que estabelece automaticamente uma sensação melancólica em volta da ação e remete os espectadores aos clássicos do gênero, como O Falcão Maltês e À Beira do Abismo. Só que no filme, esse preto e branco vai um pouco além; a elegante iluminação cria ambientes fortemente contrastados que exalam uma aura de perigo e mistério, dois ingredientes indispensáveis – além de difíceis de obter – aos melhores noir. Muito bom.
Mas chega de rodeios, ao filme. A história da obra é direta: o barbeiro caladão Ed Crane, (Billy Bob Thornton, em atuação irrepreensível), que fuma mais do que fala, vê na possível traição da mulher, a contadora Doris (Frances McDormand), uma chance de ganhar uma bolada, que o ajudaria a entrar, com outro sujeito (o versátil Jon Polito), no que ele acredita ser um proveitoso negócio de lavagem a seco. Ele procura mesmo é mudar de vida, sair do marasmo que contamina seu dia a dia. Só que a cada nova variável que se apresenta na equação, sua idéia inicial começa a ruir, levando todos os personagens envolvidos por caminhos inesperados.
O que adiciona mais qualidade à obra dos Coen é a imprevisibilidade do roteiro. Por motivos óbvios, não vou discorrer sobre os acontecimentos – mas adianto que, para vários espectadores, são verdadeiras e agradáveis surpresas. Talvez os mais atentos e com mais experiência neste gênero consigam adivinhar os próximos passos da trama, mas é difícil. E, numa época onde ser pego de sobressalto está cada vez mais raro e o elemento “surpresa” já é dado como morto e enterrado, um filme como este é objeto valioso para os cinéfilos mais exigentes.
O maior êxito dos irmãos Coen em O Homem que Não Estava Lá é que, além de reviverem com maestria um gênero moribundo – o noir –, eles conseguem enquadrá-lo dentro de seu universo pessoal. Os famosos losers (perdedores), que normalmente habitam seus filmes, estão presentes. Tornou-se praxe encontrar, nos filmes deles, sujeitos excêntricos (Jeff Bridges, em O Grande Lebowski, William H. Macy, em Fargo) se deparando, a partir de uma idéia maluca e elaborada, com uma seqüência impagável de desastres. Ou seja, Joel e Ethan juntam seus conceitos ao noir, e tudo sai redondo. Filmaço, que, sem dúvida, possui um lugar na lista de melhores noir da história.
5 comentários:
Realmente tah dificil achar um filme que te deixe com as calças na mão ne?
Acho que o ultimo que realmente me pegou foi o sexto sentido..
..Talvez little miss sunshine ou brokeback moutain tambem tenham me surpreendido um pouco..: vai saber!?
Continua com essa tranquera que o negoço é baum!
loiras fatais? :~ pensei que só eu era fatal :~ e eu nem sou loira :~
eu acho que eu deveria ver esse filme! deve ser mt bom pra vc gostar tanto. Mas eu gostei mais da critica de amor a flor da pele. acho que enfeitasse demais esse ao ponto de ficar cansativo :T até pulei algumas partes :P
critica construtiva ok? :*
agora que vi o filme retiro o comentário anterior que fiz! agora o texto saiu fluidamente e nao pulei nada! achei muito maravilhoso! quando leio consigo traduzir todos meus pensamentos em palavras e ainda acrescento conhecimentos! obrigada querido! eu cresço muito junto a você!
eu tinha feito um post maior mas o blogger matou-o ;/
pronto, já que eu nao consigo deletar aquele "blog" vou ficar comentando assim :)
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