quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O pai do popdoc

O documentário é um gênero de cinema que não cria facilmente empatia com a grande parte dos espectadores. Talvez isso ocorra porque, por ser um gênero cinematográfico creditado erroneamente a “retratar o real de forma objetiva”, acaba por ser taxado de enfadonho, já que o cinema é, em linhas gerais, um ambiente para se “escapar da realidade” ou “entrar no mundo mágico da ficção”.

A partir deste índice de rejeição com o grande público, é interessante entender o destaque obtido pelo realizador de documentário Michael Moore junto a essas mesmas pessoas. Elas podem não gostar de documentários em geral, mas com os trabalhos de Michael Moore a história é diferente. Mais ainda, em muitos casos, é com um filme de Moore que os espectadores entram no universo do documentário. O que desemboca num erro; na cabeça de muita gente, o jeito do realizador americano abordar os temas é a maneira definitiva do documentário se apresentar.

Antes de qualquer coisa, é importante saber que o cineasta americano foi além de sucesso comercial e de público – algo que não revela surpresas, já que Moore fala direto ao coração dos espectadores que vêm injustiças e sofrem calados – com isso chama a atenção dos grandes estúdios. Com a obra Tiros em Columbine (EUA, 2002), Moore ganhou a crítica internacional e o Oscar de melhor documentário. Muita gente se rendeu à sua forma de trabalho. Mas também muita gente caiu em cima, tecendo críticas negativas que o acusam de distorcer a realidade. Para compreender o fenômeno que se tornou o realizador americano, é importante entender o contexto histórico-social de suas produções, ou seja, onde se passa suas obras, o quê ele comunica e para quem ele fala.

Moore se tornou conhecido por criticar a sociedade americana, escolhendo alguns temas como uma constante em seus documentários; ele retrata a injustiça social, faz críticas ao governo americano e questiona os costumes da maior potência mundial. Ao debater sobre temas tão polêmicos, não é surpresa que Michael Moore tenha angariado espectadores com a mesma força que os tenha repelido. Os que simpatizam com o cineasta adoram a forma irônica com que ele critica o poder e a hipocrisia dos líderes americanos. Os que o têm na mais baixa estima afirmam que Moore não passa de um sensacionalista, um criador de caso que muda os fatos e sofre de uma falta de ética crônica. Numa batalha hipotética – e épica, diga-se – apreciadores x detratores estariam, em termos de número, num volumoso empate técnico.

Polêmicas à parte, a verdade é que Moore criou uma estratégia para chamar para si o estigma de cineasta “autor”. Isso, observado de forma isolada, demonstra talento. E esse talento está reacendendo a chama do documentário. O diretor americano estabelece um discurso atraente e pessoal para os espectadores; é como se desse voz a cada uma das reivindicações de uma população carente em ser ouvida. Isso cria uma empatia muito forte, um estranho vínculo de amizade com o diretor. É realmente um caso de “ame ou odeie”.

Além disso, Moore conseguiu criar um personagem sólido em todos os seus trabalhos. Como Carlitos, alter-ego do ator Charles Chaplin, que estrelou vários filmes, Michael Moore ator-cineasta é um personagem pra lá de eficiente em seu trabalho. A partir do seu discurso, ele consegue tornar-se uma pessoa simpática aos olhos de um público ávido em querer vivenciar as mudanças que ele aponta. Sua caracterização começa já na forma de se apresentar aos espectadores. Ele se introduz com traços típicos do nerd americano; gordo, óculos, boné e roupa surrada. Como apontou o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, ele é o oposto da imagem de beleza ditada pelos EUA.

Outra característica interessante na estratégia de Michael Moore é sua consciência que é uma “estrela”. Em 2005, foi eleito uma das 100 pessoas com mais influência no mundo, pela revista Time. Ele se apropria desse fato em suas produções; é como se possuísse passe livre para caminhar tranquilamente entre as outras estrelas e, com isso, conseguir ótimas entrevistas (vide sua conversa com o músico Marilyn Manson, no backstage de um de seus shows e com ator Charlton Heston, em sua mansão em Hollywood – ambos em Tiros em Columbine).

Além disso, com esse status, ele pode literalmente “armar um barraco” para ser ouvido. Em Tiros em Columbine, depois de ter sido ignorado pelos empresários da Kmart, loja que vendeu as balas que estão alojadas nos corpos das vítimas de Columbine, ele voltou; mas dessa vez usou sua influência e trouxe a mídia com ele. Resultado: foi agraciado com uma bela vitória simbólica; a Kmart se prontificou a não mais vender balas em seus estabelecimentos. Ou seja, a partir de suas ações dentro do documentário, ele causou uma mudança no mundo “real”. No filme, é um momento bem novelesco, mas de inegável importância.

Depois de chacoalhar o âmbito do cinema documental com suas obras polêmicas e sua marca autoral, Michael Moore está agora criando uma tendência pessoal dentro de um gênero que andava desacreditado e cambaleante. Na prática isso é traduzido em novos cineastas aparecerem com “o jeito Moore” de realizar documentários. Um dos melhores exemplos para dar corpo a essa idéia é o documentarista Morgan Spurlock, autor de Super Size Me (EUA, 2004). Na obra, Spurlock serve de cobaia para uma empreitada audaciosa: provar o mal que o fast food, faz para a saúde, ao se alimentar desta comida todos os dias durante um mês. Ao longo da película, “o jeito de Moore” de apresentar os fatos está presente: a crítica aos costumes americanos, a tentativa de mudar o “real” (no sentido de diminuir o domínio desse tipo de lanche em detrimento a comidas mais saudáveis), está tudo lá.

Por tudo isso, o cineasta Michael Moore está fundamentando as regras para um produto híbrido dentro do gênero documentário. É um crítico-ativo, sabe ser chato e inconveniente (basta ver sua tentativa de entrevista com Dick Clark em Tiros em Columbine), mas também é persistente e desbocado o suficiente para fazer coisas que muita gente gostaria ter coragem ou oportunidade de fazer. Com tanto apelo junto ao público, com essa imagem de badboy para as causas nobres, Michael Moore acaba juntando na mesma equação idéias tão díspares que dificilmente seriam concebidas sem sua atuação; o documentário pop, ou, se preferir, o popdoc.

2 comentários:

Rian Lins disse...
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Rian Lins disse...

Na minha opinião o que diferencia ele dos outros muitos, é o fato de ele não enfiar guela abaixo o que ele quer dizer. Outra voisa muito legal é o fato de ele se igualar a nós, assim ele mostra que está no nosso nível, e que se tivermos a coragem e perspicácia que ele tem talvez o mundo mudasse um pouquinho mais...