terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Vincent


Dizem que pra entender o mundo particular de cada diretor, o melhor a se fazer é ver seu primeiro trabalho. No caso de Tim Burton, nada poderia ser mais elucidativo. O que impressiona é que ele consegue mostrar as mesmas características que viriam a compor seu estilo pessoal nos trabalhos posteriores em apenas cinco minutos. Trata-se de Vincent (EUA, 1982), primeira animação em stop motion de Burton.

O curta-metragem conta a história de Vincent Malloy, um garotinho de sete anos, com imaginação fértil, mas de dia-a-dia monótono. Pra quebrar esse tédio, ele transforma as situações mais corriqueiras – visita da tia, sermão da mãe – em acontecimentos grandiloquentes. Sua casa vira um laboratório de cientista louco de uma hora pra outra, seu cachorro passa de um inofensivo animalzinho a um zumbi monstruoso.

Para enfatizar as diferenças entre esses dois mundos diferentes que coexistem na cabeça de Vincent, Tim Burton enfatiza alguns elementos do cinema. Por exemplo, para deixar claro a que está na “realidade”, quando a mãe do menino fala, a música de fundo cessa e a voz do narrador ganha um tom mais realista. Quando as alucinações voltam, a voz em off fica mais eloqüente e as músicas em tom fúnebre ganham espaço. Além disso, durante os devaneios de Vincent, as cenas são mais escuras, com muitas sombras – em oposição à iluminação do mundo “real”.

O título do filme é uma homenagem ao ator Vincent Price (que atuou como o criador de Edward, em Edward Mãos de Tesoura). Aliás, o garotinho crê ser o próprio Vincent Price. É provável que isso seja um fato autêntico da infância de Burton, afinal o diretor já mostrou predileção pelos filmes do ator de clássicos do horror. Este curta até lembra alguns momentos de O Abominável Dr. Phibes, de 1971, em que Price protagoniza um doutor/cientista perturbado com a morte da mulher, e que exprime suas dores através de notas cadavéricas num órgão enorme.

Além de ser preiteado, Vincent Price também está no filme; ele empresa sua voz cavernosa ao texto preciso de Tim Burton. Essa combinação é de uma exatidão pouco vista no cinema. Temos um textinho redondo, uma poesia melancólica com pitadas macabras, mas agradável, em forma de rima – e narrada por uma voz sombria, de entoações dramáticas de um ícone do gênero. Encaixe perfeito.

Aliás, o texto de Burton é bem rico em referências. Cita algumas obras de Edgar Allan Poe, como O Corvo e A Queda da Casa de Usher. Este último virou um filme, nas mãos de Jean Epstein e Luis Buñel, em 1928. É possível notar algumas referências ao clássico do cinema impressionista francês, como a noiva que volta à vida e o quadro vívido pintado pelo obsessivo viúvo.

O curta-metragem de Tim Burton mostra um protótipo de diretor sensível e singular, que viria a produzir grandes filmes, como Edward Mãos de Tesoura, Sweeney Todd e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Assim como nesses outros filmes, em Vincent, Burton conta uma história com um sutil humor negro, mostrando um personagem excêntrico em ambientes agradavelmente soturnos, como só Tim Burton é capaz de criar.

2 comentários:

dimitri disse...

caralho, quero ver! =~
adoro tudo isso... stop motion, e produções inspiradas em bom material, como poe e a queda da casa de usher =~

tmbrtn é bom assim desde o começo, é?

Isabella disse...

caramba deve ser muito bom
que bom q vou ver amanha
mas vê
eu só nao entendi aquela parte de vincent price... depois tu tenta me explicar melhor!