segunda-feira, 24 de março de 2008

O Gabinete do Dr. Caligari



Cada movimento cinematográfico tem seu expoente. Não é necessariamente o melhor da leva, mas é aquele que sempre lembramos quando pensamos nas escolas do cinema. É um filme que consegue encapsular toda a gama de características que compõem determinado estilo. No expressionismo alemão – um dos primeiros desses movimentos do cinema –, vários filmes conquistaram a alcunha de “clássico”. Mas, dentro desse grupo, um sobressai. Trata-se de O Gabinete do Dr. Caligari (Kabinett des Dr. Caligari, Alemanha, 1919).

A obra de Robert Wiene segue à risca as principais peculiaridades que marcaram o expressionismo. O primeiro detalhe que marca esse movimento veio do quadro O Grito, de Edvard Munch. As linhas distorcidas e as pinceladas frenéticas produzem uma pintura que reflete a angústia interior. A paisagem distorcida que vemos é, na verdade, como o sujeito anônimo que “grita” vê o mundo. Essa idéia expressionista percorre todas as mídias do movimento. No cinema, isso significa cenários estranhos; distorcidos (O Gabinete do Dr. Caligari) e imponentes, idéia vinda principalmente da arquitetura (Metropolis).

Walter e Herman Rohrig foram os cenógrafos do filme de Wiene. O trabalho deles foi impecável; construíram um cenário completamente bizarro. As janelas são oblíquas, as escadas sinuosas, as casas com linhas tortas, as ruas e os postes de luz curvos. Visto sob a ótica contemporânea, parece mais com alguns trabalhos de Tim Burton (a casa de Charlie, em A Fantástica Fábrica de Chocolate é muito semelhante ao cubículo habitado por Caligari).

O mais legal é que nada disso é gratuito, ou feito “para seguir o movimento em voga”. Toda a história é contada por um cara que não bate bem da cabeça. Então, os irmãos Rohrig e Wiene decidiram usar esse cenário, que é uma forma sutil e interessante de mostrar o estado mental conturbado do protagonista. Ou seja, dialoga com a própria história, não é algo jogado, feito por acaso. E vale ressaltar que boa parte dessas “loucuras” foi pintada nas paredes, um trabalhão danado.

Além dos cenários como uma expressão do mundo interior, um dos maiores legados do expressionismo para a posteridade do cinema foi sua fotografia. Ela foi assimilada por outros movimentos (principalmente o noir), além de transitarem por vários outros filmes como um elemento dramático de forte intensidade. A fotografia expressionista enfatiza o contraste entre o claro e o escuro, com sombras abundantes criando cenários densos e sombrios.

Vejam a cena no interior da barraca de Caligari. Ali, a luz dá o tom da seqüência. É o primeiro momento que vemos Cesare, o sonâmbulo que obedece cegamente às ordens do doutor. Quando a câmera focaliza Caligari, o enquadramento e a iluminação sublinham um sentimento de terror. A idéia é clara: aquele sujeito é perigoso. Existem outras cenas que trabalham com esse conceito, como quando Alan, o amigo do protagonista, é assassinado. É uma cena fantástica, onde as sombras dos atores é que são filmadas. A do assassino vai lentamente entrando no quarto e, em seguida, assume vantagem sobre a da vítima, que nada pode fazer.

O argumento do filme é de Carl Mayer. A trama é linear, com uma boa reviravolta no final. O Dr. Caligari do título é um velhinho estranho. Ele usa umas roupas que lembram as de um mágico: uma capa preta, sombria e uma cartola grande. Seus cabelos brancos são longos. Ele usa um par de óculos com aro redondo, um cavanhaque branco e tem uma verruga na bochecha. É um sujeito esquisito que sobressai sem grande esforço da penca de figurantes que habita as cenas.

Caligari chega numa cidadezinha e instala sua barraca num festival de circo. Sua atração logo vira notícia, chamando um grande público. O doutor mostra para todos o sonâmbulo Cesare, que dorme há anos e também é capaz de responder qualquer pergunta sobre o passado e o futuro. O crítico alemão Sigfried Kracauer, chegou a comentar que essa relação de poder entre o doutor e o sonâmbulo seria uma alegoria para a Alemanha na época do nazismo, uma nação seguindo cegamente um louco.

Em seguida começam os assassinatos. O secretário da cidade e Alan, um amigo de Francis, o protagonista. A suspeita cai sobre Caligari e sua estranha atração. A partir daí todos os elementos fílmicos citados se unem para contar uma história coesa, que flui de forma tranqüila. Para isso, Wiene contou com uma montagem precisa, que além de brincar com a montagem paralela – enquanto a namorada de Francis é perseguida por Cesare, o personagem principal está na entrada da casa de Caligari, investigando –, o diretor ainda joga com a idéia do flashback. Ele não foi o primeiro, o grande pioneiro D.W. Griffith já havia usado esse artifício em O Nascimento de Uma Nação quatro anos antes, em 1915. Mas isso não tira o brilho do trabalho de Wiene.

É difícil apontar um ponto negativo numa obra dessa grandeza. A câmera é estática. Durante todo o filme temos a impressão de estar na platéia de uma peça de teatro. E a atuação contribui para solidificar esse pensamento. Mas isso é coisa da época. Já que não havia sons, os filmes mudos tinham uma atuação muito teatral, com gestos grandiloqüentes para expressar tudo o que algumas palavras poderiam apaziguar. Além de pesadas maquiagens, para enaltecer as expressões. Não há nada de sutil na interpretação desses atores, mas isso não ofusca de maneira alguma o filme de Wiene, um verdadeiro marco do cinema mundial.

2 comentários:

Isabella disse...

poxa! parece ser muito bom esse filme! mesmo q eu nao me de mt bem com cinema mudo :x coisa q acho q tenho q mudar né ... :T só achei q falasse mta coisa tecnica na critica, ai nao consegui entender tudo... mas pra quem tem os conhecimentos como os seus deve ter fluido melhor! nao posso deixar de comentar como te acho o suprassuma da inteligencia depois de ler suas criticas! com tantos conhecimentos acumulados e tanta coisa que eu nao sabia ou nao poderia perceber sem vc! fora que tenho vontade de ver todos os filmes dos quais vc escreve! te amo querido! tais ficando cada dia melhor! nem imaginava que tu ia alcançar esse nível tao rapido!

Ocio disse...

Outro filme muito bom da mesma "linhagem" é O GABINETE DAS FIGURAS DE CERA. Vc já viu? A mim interessa mais que O GABINETE DO DR. CALIGARI pela construção narrativa que o diretor usa no entrelaçamento de histórias mais densas com interpretações bem mais fortes (não sei explicar direito, não sou boa crítica como Vc :P,e por ter um cenário deslubrante (bem como disseram nesse site da uol...que coisa).

enfim, vale muito a pena assistir.
"O Gabinete das Figuras de Cera"
SINOPSE
Jovem poeta é contratado por dono de museu de figuras de cera para escrever histórias baseadas em seus bonecos: o califa Harum Al-Raschid, Ivã, O Terrível e Jack, O Estripador. Ele acaba se imaginando como o herói em luta com os três vilões em histórias diferentes.


COMENTÁRIOS (uol)
Uma das obras-primas do expressionismo alemão. O diretor Paul Leni (1885-1929) foi cenógrafo e artista plástico e dava grande importância aos cenários, que na sua opinião deviam ser o menos naturalista possível. Isso fica claro nesse filme com direção de arte excepcional, repleto de formas estranhas e prédios estilizados, e com os ângulos de câmera e efeitos de sombra e luz característicos do gênero.

A opção pelo sombrio se estende aos vilões retratados, interpretados em estilos totalmente diferentes por três dos maiores atores alemães da época: Emil Jannings (o califa), Conrad Veidt (Ivã, o Terrível, e que mais tarde seria imortalizado como o oficial nazista em "Casablanca") e Werner Krauss (Jack, o Estripador).

São três visões diversas e independentes da maldade humana (e do subseqüente castigo), narradas de formas variadas e em episódios de tamanho desigual (haveria um quarto, retratando Rinaldo Rinaldini, que não foi realizado por falta de dinheiro).

O contraponto é feito pelo casal de apaixonados: o poeta é interpretado por William Dieterle (1893-1972) que mais tarde faria uma vitoriosa carreira como diretor em Hollywood. O diretor Leni também iria para os Estados Unidos poucos anos depois e faria algum sucesso com filmes como "O Homem Que Ri" e "O Gato e o Canário", antes de morrer prematuramente.

Wachsfigurenkabinett, Das (Alemanha, 1924)
Diretor: Paul Leni
Elenco: William Dieterle, Emil Jannings, Conrad Veidt, Werner Krauss, John Gottowt, Olga Belejeff
Extras: Trilha de comentário do especialista em filmes mudos Luiz Nazário, biografias, texto de Paul Leni A Arte do Cenário no Cinema e o curta metragem de Leni Rebus Film I, realizado em 1926
Idioma: Mudo (trilha musical em 2.0)
Legendas: Português, Espanhol
Gênero: Drama
Duração: 83min Colorido
Distribuidora: Magnus Opus