terça-feira, 4 de março de 2008

A Tortura do Silêncio



Alguns diretores repetem a mesma história em vários trabalhos. Às vezes através de linhas tortas, outras a partir de um ponto de vista diferente. Hitchcock não foge dessa regra. Um dos temas mais explorados em seus filmes é a culpa. Onde um homem inocente vira o principal suspeito de um crime, a partir de circunstancias casuais, sobre as quais possui quase ou nenhum controle. Essa é uma idéia que o cineasta utiliza em A Tortura do Silêncio (I Confess, EUA, 1953).

O filme narra uma história intricada, que envolve religião, crime e amor. Durante uma noite na igreja onde trabalha, o padre Willian Logan (Montgomery Clift) vê um empregado do local, o alemão Otto Keller (O.E. Hasse), entrar desesperado. Ele confessa que acabou de matar o advogado Villette. Otto explica que não agüentava mais ver sua mulher, Alma Keller (Dolly Haas), trabalhando naquela intensidade, precisava do dinheiro para mudar essa situação. Roubou 2000 dólares.

A idéia que move o filme é que, como o trabalhador alemão contou isso para o padre no confessionário, a religião impediria o clérigo de correr para a delegacia e denunciá-lo. Hitchcock mencionou que esse fato pode ser questionado ou até mesmo ignorado por pessoas que não sejam religiosas. Ou seja, muita gente pode não acreditar na base que sustenta o desenrolar da trama, o que faz toda a estrutura desmoronar; podemos, a qualquer hora, perguntar: “mas porque diabos o padre não denuncia Keller?! Ele não presta!”. O diretor chegou a comentar que, por esse fato, o filme não deveria ter sido feito. Declaração forte.

Mas este filme de Hitchcock tem pontos positivos. Já nos primeiros minutos encontramos pelo menos duas características que permeiam suas célebres obras. Na primeira cena depois de mostrar uma igreja à distância, vemos um gordinho andando calmamente numa rua. Trata-se de Hitchcock. Engana-se quem pensa que esse narcisismo brincalhão começou com Quentin Tarantino. Há muito tempo que o diretor inglês já fazia pequenas e silenciosas participações em seus filmes, na maioria das vezes como um transeunte qualquer.

Outra característica que se repete em alguns de seus filmes – principalmente em Pacto Sinistro –, é um sutil aroma noir. Neste filme ele vem temperado com pitadas de expressionismo alemão. É outra cena logo no início; vemos um corpo estendido no chão e, em seguida, um estranho de chapéu e roupa de clérigo correndo desconfiado por um rua deserta e escura. A silhueta dessa pessoa misteriosa é assustadora – com sombras grandes projetadas na parede. A iluminação do filme trabalha com esse conceito, de formar pesadas sombras para acentuar o perigo, como a escola alemã fazia.

E é justamente por causa dessa roupa que é feito todo o fuzuê sobre o coitado do sacerdote. Duas testemunhas afirmam ter visto um clérigo perto da casa do morto. Depois de uma rápida pesquisa nas paróquias das proximidades, os detetives eliminam todos os possíveis assassinos, com a exceção de um; o padre Logan. Só que Hitchcock já deixou claro quem é o assassino. Este não é um daqueles filmes para descobrir o criminoso (whodunit?), trata-se de um suspense. E o diretor é bem claro na definição deste gênero; é quando o espectador sabe mais que os personagens e, por isso, sente mais ansiedade. Hitchcock brinca em vários filmes com essa idéia. Neste trabalho especifico, ela vem embebida num jogo de cena interessante, onde os personagens alternam o poder na tomada.

Há um momento que ilustra bem esse jogo de poder dentro de uma seqüência. É quando os detetives chamam Ruth Grandford para depor sobre a noite do crime. Estão lá também: padre Logan, principal suspeito, o advogado Pierre Grandford, marido de Ruth e alguns policiais, liderados pelo inspetor Larrue. No momento inicial, todos estão num tom cordial, de igualdade. A câmera atua apenas como uma observadora imparcial.

Depois de um buraco no depoimento de Ruth Grandford, o inspetor Larrue começa a instigá-la – e o padre Logan pede para que ele pare. A partir daí, o detetive assume o papel principal da cena; ele fica em pé e o vemos em plongée (quando a câmera filma de baixo para cima, deixando o personagem com um ar superior), enquanto Ruth Grandford em contre-plongée (enquadramento de cima para baixo, numa idéia de inferioridade). Suas perguntas rígidas e insistentes são carregadas de segundas intenções – enquanto Ruth pensa estar livrando seu amigo Willian Logan, está na verdade, fornecendo os motivos para um assassinato. É uma cena de quase 17 minutos, mas muito bem orquestrada.

Hitchcock usa bem todos esses minutos. Através de um flashback, o diretor mostra os fatos nebulosos que se emaranhavam no passado do protagonista. Para jogar com a idéia do romance entre o Logan e Ruth, nada mais eficiente que iniciar a cena homenageando um dos maiores romances da história, Romeo e Julieta. Vemos o futuro padre na calçada, em frente a um prédio. Ele grita algo e Ruth aparece em seguida, do alto de uma escada, sorridente e apaixonada. Não precisa dizer mais nada, aqueles dois se amam.

Na brilhante entrevista com Truffaut – que depois virou um livro –, Hitchcock revela seu desalento em relação à justiça. Em dois momentos distintos, vemos o promotor Willy Robertson (Brian Aherne) equilibrando objetos; um garfo e uma faca simultaneamente num copo e, noutro instante, um copo, cheio, em sua testa. A piada visual é que, para o personagem, a justiça – cuja estátua simboliza a idéia de equilíbrio – não passa de um jogo, um divertimento agradável para passar o tempo. Hitchcock repete esse conceito em vários outros filmes, como Agonia de Amor e Chantagem e Confissão.

A Tortura do Silêncio está impregnado de características de Hitchcock; o suspense, a posição privilegiada do espectador, a culpa, as cenas reveladoras sempre bem elaboradas, a técnica apurada. Mas o filme saiu estranho. Talvez pela razão que o próprio diretor apontou na entrevista com Truffaut, a estrutura da obra é capenga, fica naquele balança-mas-não-cai incômodo. Bom pra conhecer mais do mestre do suspense, mas inferior aos clássicos que o consagrou.

0 comentários: