
É complicado dizer que um filme de Hitchcock não é bom. Mas, um jeito de confirmar a qualidade, é ver vários em seqüência. Aí fica mais simples identificar, além de alguns temas que são recorrentes, onde seus filmes ganham a autoralidade. Por exemplo, quase sempre há a mãe dominadora (Psicose, Interlúdio, Pacto Sinistro), a culpa (Tortura do Silêncio, Um Corpo que Cai) e, em tantos outros trabalhos, a questão do “homem errado”. Alguém é confundido por outro criminoso e é caçado. Aí, cabe a essa vítima do destino provar sua inocência. Em linhas gerais, esse é o tema central de Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, EUA, 1955).
Mas Hitchcock soube esconder o cerne de seus filmes, quase sempre em thrillers policiais. Neste caso específico, o trabalho ficou sem o brilho que marcou a década de 1950 do cineasta britânico – afinal, foi nesse período que Hitchcock lançou aqueles filmaços, Pacto Sinistro (1951), Janela Indiscreta (1954), Um Corpo que Cai (1958) e Intriga Internacional (1959). O argumento aqui é simples: um homem (Cary Grant, que só voltou a filmar a pedidos do cineasta), que já foi um grande ladrão de jóias, é o principal suspeito de uma seqüência de roubos que seguem seu modus operandi.
Só que o sujeito é inocente. A partir daí, ele vai fazer de tudo para provar isso, e ainda por cima pegar o verdadeiro salafrário. A trama se passa na França, como o primeiro plano indica, com cartazes de cidades francesas e uma miniatura da torre Eiffel. A beleza do país europeu é fotografada por um olhar preciso de Robert Burks, e aproveitada em belas tomadas panorâmicas de uma cidade do litoral francês. Lindas imagens. Uma fusão interessante de cores que dão uma sensação agradável de calor.
A subtrama é a paixão entre Cary Grant e Grace Kelly. A impressão que dá é que todo o filme foi construído para esse encontro, de dois grandes atores. Grace está maravilhosa na pele de uma mulher rica e um pouco mimada. Hitchcock oferece a ela generosos closes, que enfatizam a beleza dela. É uma pareceria que acabaria neste trabalho. Até aí, os dois já haviam filmado o já citado Janela Indiscreta, Disque M para Matar e este, Ladrão de Casaca. Um ano depois, em 1956, ela se casou com Rainier III, o príncipe de Mônaco. Depois, atuou em apenas três filmes, sendo o último no ano em que morreu, em 1982.
Há, em Ladrão de Casaca, algo que destoa da idéia de suspense de Hitchcock. Para o cineasta, a construção ideal para esse gênero é deixar o público em posição privilegiada no transcorrer da ação. Ele citou um exemplo clássico para o cineasta François Truffaut, na famosa entrevista que, depois, virou livro: a melhor maneira de fazer um homem explodir um restaurante é mostrar ao público o que ele está tramando. Informar o tempo que resta até a bomba detonar. Assim, dependendo da duração da cena, a angústia dos espectadores será maior. Mais ou menos como o espetacular plano-seqüência que abre Marca da Maldade, de Orson Welles.
Hitchcock emula essa idéia em vários trabalhos. Tanto em cenas chave quanto em pequenos acontecimentos, sempre de forma criativa. Em Ladrão de Casaca, esse conceito não existe. O maior segredo do filme é “quem é o bandido?”. Hitchcock faz de tudo para despistar os espectadores. No final das contas, a fachada o filme fica sendo um típico whodunnit? (quem é o culpado), algo que o próprio cineasta britânico já confessou que não gosta. Muito bem feito, claro, mas simples. O filme é divertido, mas soa algo banal, sem o toque hitchcockiano que já rendeu várias obras-primas.
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