Tião não é cinéfilo daqueles que já viu de tudo. Confessou à platéia do Cinema da Fundação, durante a comemoração dos 10 anos do centro de cinema alternativo de Pernambuco, com medo de perder a credibilidade, que só assistiu Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, nenhum trabalho do começo da carreira de Pedro Almodóvar e apenas Os Incompreendidos, de François Truffaut. Ele comentou especificamente estes diretores porque os espectadores presentes no debate teimavam que viam muito destes cineastas em sua segunda película, Muro (Brasil, 2008), que venceu o prêmio Un Regard Neuf (um novo olhar), no Festival de Cannes deste ano. Feito e tanto para um cara de 25 anos.
O público tem um monte de interpretações porque o filme de Tião dá abertura para isso. É um trabalho com aura de experimental, como denuncia a ausência de música e a montagem paralela fragmentada em pequenas histórias, que se comunicam a partir de detalhes narrativos. Há uma corrida de adultos – a princípio não sabemos o motivo –, corrida de crianças, de sujeitos com ternos. Falta de ar, concorrência, desafio, embate entre velho e novo. Tudo isso ligado por planos semelhantes, que se alternam.
Uma das influências, como revelou o diretor, é de David Lynch. E há personagens definitivamente lynchianos, como o sujeito desarrumado que está deitado num quarto escuro e, enquanto olha para o chão, solta algumas frases que ligam, a partir de linhas tortas, os pequenos acontecimentos. Outro jeitão Lynch de filmar está logo no começo, num plano geral de uma casa onde copos dançam e uma mulher observa pernas sem dona se remexerem. Tião até revelou que tentou fazer como o cineasta americano fez em Cidade dos Sonhos, com um jogo com o foco da imagem. O resultado ficou bom, já que a cena tem um pé no surrealismo.
O recorte imagético de Muro traz à mente, além de muitos diretores, outros cantos do mundo. Lembra o oriente médio, o Muro das Lamentações (nome original do filme, que Tião decidiu mudar para deixar seu filme mais subjetivo), traz debates sobre a posição da mulher na sociedade e brinca com a própria linguagem cinematográfica, por forçar os espectadores a dar significado àquela história aparentemente maluca a partir pequenos índices de uma narrativa quebrada. Ótimo trabalho, que foge do lugar-comum que toma conta de várias produções atuais.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Muro
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3 comentários:
fiquei curiosa pra ver esse! depois de ler aí, parece ser mais louco que eu imaginava... nao sei se vou gostar :P mas to curiosa!
as pessoas tem essa necessidade de referências pra não ficarem perdidas. eu tou perdido até agora, mas adorei.
curto mto tiao. se vc visse o documentário q ele fez como matéria especial da facul babava o minino. e pra gente, ele é um minino mermo. e vai longe, hein?
xero!
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