

A temática do amor impossível, com tragédias e lições de moral se amontoando nas entrelinhas ao longo da projeção, quase sempre exerceu fascínio sobre as escolhas cinematográficas de Hollywood. Não é preciso ir tão longe dentro da história do cinema para buscar exemplos. Isso pode ser encontrado em Titanic (1997), com a diferença entre classes sociais se posicionando como barreira à felicidade do par romântico. Ou então no caso de Forrest Gump (1994), com uma doença mortal separando o casal protagonista. Esses dois filmes, além de servirem de exemplos sintomáticos de um cinema com pé no exagero, possuem defeitos particulares, mais ou menos na linha melodramática e moralista. Também têm méritos próprios; sejam eles cenográficos (no caso de Titanic), ou até mesmo narrativos (Forrest Gump). Mas o amor impossível nunca veio de uma forma tão visual quanto em O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008), de David Fincher.
O filme surgiu de um conto de Scott Fitzgerald, que fala sobre um garoto, Benjamin Button (Brad Pitt), que nasce com 86 anos e “envelhece” ao contrário, até se tornar um bebê. Mais ou menos na mesma época, Daisy (Cate Blanchett) vem ao mundo. O espectador atento vai perceber que, quando Button estiver na flor de seus 40 anos, nessa contagem regressiva, Daisy terá mais ou menos a mesma idade. Só que, claro, ela vai ficar cada vez mais velha, enquanto Button rejuvenesce. E é justamente ao capturar esse momento efêmero, quando os dois têm quarenta e tantos anos e compartilham momentos afetivos, que o longa-metragem de Fincher cresce. É o ápice da construção dramática. É uma cena curta, que aparece do meio para o final da projeção. Mas é capaz de encapsular diversas questões que a película levanta – a passagem do tempo, a velhice, a intimidade, os sonhos, a dor da perda –, sem querer propor nenhum tipo de conclusão falsa.
A estrutura narrativa adotada por Fincher para contar essa história de amor impossível precisou de um extenso trabalho de reconstituição visual. O filme começa em 2005, com Daisy já velha, num quarto de hospital. A fotografia em tons de azul e as notícias na TV de um furacão chegando à cidade criam instintivamente um clima melancólico. A maquiagem dela e a voz cansada (que depois de um tempo também cansa os espectadores) escondem bem a atriz. Depois de trocas de carinho entre ela e sua filha, Caroline (Joeanna Sayler), Daisy pede para ela ler um diário. Aí a película entra num flashback e volta ao ano 1918, quando Benjamin Button nasceu. Como são as memórias de Benjamin que estão sendo lidas, o personagem interpretado por Pitt começa a narrar o filme. Esse é um dos maiores entraves na fruição da obra, já que, em várias ocasiões, esse artifício serve apenas para diluir o poder visual de Benjamin Button (que tinha cacife para segurar o trabalho), utilizando palavras rasas para passar sentimentos complexos. É verdade que esse recurso está ligado organicamente à narrativa (há um motivo plausível, que vem de dentro do filme, para a narração existir), mas ela prejudica a acepção das imagens.
Ao situar a ação entre o final da Primeira Guerra Mundial (1918) e o novo milênio, que representam os 86 anos vividos por Button, o trabalho de construção de ambientes onde a narrativa se desenrola ganhou um peso único – especialmente sendo Fincher um artífice na questão realismo e reconstrução visual (basta ver seu filme anterior, Zodíaco). A passagem entre essas várias décadas é realizada com fluidez e unidade visual. Essa primeira parte do longa-metragem, que ocupa bom tempo de projeção, é quase toda fotografada em tons dourados – talvez refletindo dias felizes, em contraste com a tristeza do “agora”. Mais para frente, cores em tons mais escuros corporificam os caminhos melancólicos que história toma.
Mas o que chama a atenção dos espectadores é assistir ao envelhecimento (ou rejuvenescimento, no caso de Button), da dupla protagonista – além de alguns personagens secundários que reaparecem em diferentes tempos. Nesse sentido, a iluminação assumiu papel importante. Quando ocorre o encontro temporalmente mais chocante entre Pitt, como um adolescente, e Blanchett, com sessenta e tantos anos, vemos apenas os contornos dos personagens com clareza – seus rostos foram cuidadosamente escurecidos. Além de servir para esconder possíveis defeitos na maquiagem, a iluminação ajuda a criar um clima romântico. São imagens delicadas, que reativam a intimidade do casal.
Talvez por ser uma obra longa – quase três horas de duração –, Benjamin Button possui várias seqüências que alternam entre grande delicadeza e melodrama fácil. Há uma cena em particular que serve como exemplo ideal, já que sinaliza esses dois caminhos. Ao mesmo tempo em que a subtrama com Elizabeth Abbot (Tilda Swinton) fornece material humano para desenvolver uma visão madura sobre relacionamentos e a dificuldade em estabelecer elos entre as pessoas (filmada com esmero visual – notem como a posição da câmera indica de um jeito simples a rotina do encontro do casal, sempre ao pé da escada), despenca para o um drama banal, quando envolve uma idéia barata de superação e conquista na velhice. Mais tarde Elizabeth reaparece, vencendo as barreiras da idade e do tempo, realizando um grande feito físico. É uma tradução simples, que entra em choque com aquela outra representação complexa e sincera dos dramas dos personagens. A idéia é boa, de mostrar um aspecto positivo da velhice, além de estar bem conectada com o cerne da obra – passagem do tempo –, mas é narrada de um jeito quase publicitário, querendo vender uma noção de que, mesmo na terceira idade, você não deve desistir nunca.
Esse talvez seja o principal problema da obra de Fincher. Há grandes idéias espalhadas pelo filme, mas quase sempre elas vêm de um jeito que pende para o simplista, o lugar-comum. Com isso, a película fica com apelo comercial, já que flerta com conceitos densos e atraentes (solidão, velhice, tempo), mas, na prática, demonstra receio em se aprofundar demais, talvez por medo de não conseguir incitar o espectador a acompanhar a narrativa. Benjamin Button tem a cara de ser um filme que, apesar da longa duração, vai atrair muita gente que vai se emocionar com a dor da perda, dos momentos que passam e às vezes deixam uma vaga lembrança na memória. Ou seja, o filme funciona num nível geral, com o grande público. Mas um olhar mais apurado pode se entediar com alguns momentos de fraqueza, seja ela textual (com a narração de Button que insiste em esmiuçar um drama complicado), seja visual – com imagens com cara de propaganda. O resultado final é de um bom filme, que poderia ser muito melhor. Pena.
2 comentários:
ainda nao vi, mas estou super curiosa. nao deu para a cabine no dia, mas to lá logo cedo!
eu gostei!
nao sabia que era baseado em um livro!
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