terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Dia em que a Terra Parou



“O que fazemos agora, senhor Presidente? [...] Não acho que mais bombardeios sejam úteis...”. Consciente ou não, o longa-metragem de Scott Derrickson O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008) dá uma cutucada no belicismo exagerado do ex-presidente americano, George Bush. Depois de ordenar vários ataques – sem resultados – contra uma nave esquisita, em forma de esfera, que mais se parece com o planeta Terra visto de longe, um robô de uns quatro metros de altura e um suposto alienígena, o presidente ordena... mais ataques. Se o diretor sabia o que estava fazendo quando deu essa indireta, talvez seu filme tenha ao menos um ponto positivo. Se não, vai servir apenas, caso haja vida inteligente em outros planetas, para trazer a realidade do filme para o lado de cá da tela. Será pretexto para repensar a existência da raça humana, por conceber um filme tão ruim.

O longa-metragem até que começa de um jeito intrigante. Em 1928 vemos um sujeito (Keanu Reeves barbado) numa montanha de neve. Ele encontra algo, semelhante àquela nave esférica que aparece mais para frente, e uma luz branca toma conta da tela. Pronto, a parte boa do primeiro ato terminou. Em seguida, a narrativa dá um salto de 80 anos. Aí começa a exposição do filme – de um jeito assumidamente clichê. Vemos uma cientista, Helen Benson (Jennifer Connelly), ministrando uma aula. Que mundo esse, hein, em que todos os cientistas são bonitos e atléticos. Enfim, depois que Helen volta para casa, o clichê número dois aparece: ela tem uma relação conflituosa com seu enteado órfão. E, claro, a forma disso ser transmitido é dolorosamente lugar-comum (ela chama o garoto para jantar e ele diz que não vai, porque está jogando Warcraft num laptop).

A cena seguinte esboça cativar o espectador. Vários pesquisadores – Helen está no grupo – são chamados para uma missão secreta. Numa apresentação bem didática, algum engravatado diz que um meteoro está a caminho. Para os que não entenderam o que ele acabou de dizer, uma animaçãozinha num telão simplifica tudo – uma bolinha entra em rota de colisão com a Terra. Quando os cientistas finalmente estão diante do ser de outro planeta, depois de tantas aulinhas, e vão estabelecer contato, algum militar manda um balaço no bicho. Hã? O governo tem todo esse esforço em arrumar essa missão ultra-secreta para um soldado simplesmente atirar no monstro?

O roteiro falho, que cria situações tão constrangedoras como as descritas acima, foi criado a partir de um filme homônimo dos anos 1950, dirigido por Robert Wise. Comparações entre essas duas películas não são necessárias para uma análise, já que os filmes devem se sustentar por méritos próprios – não foi a primeira vez que Hollywood decidiu refilmar um clássico, tampouco será a última. Ainda por cima, cada obra foi concebida em contextos históricos específicos, envolvendo políticas armamentistas próprias. Enquanto a Segunda Guerra tinha terminando há poucos anos e a Guerra Fria se instalava, naquela ocasião, agora vemos avanços bélicos dos Estados Unidos sobre diversos países, além de perigos ambientais, refletidos no longa-metragem (o personagem de Keanu Reeves vem para cá limpar a Terra do seu maior problema: nós humanos, que não cuidamos dela bem o suficiente). Ao menos o timing do filme foi coerente.

O que há de bom em O Dia em que a Terra Parou deve ao antecessor. A cena em que Klaatu (Keanu Reeves) conhece o professor Barnhardt (John Cleese), durante uma atuação conjunta diante de um quadro-negro (as pessoas ainda usam isso? Nos anos 1950, quando o original foi rodado, sim, mas qualquer escola meia-boca já tem aquelas lousas brancas. Ainda mais se você for um professor bem sucedido, como Barnhardt obviamente é), para resolver uma fórmula matemática funciona em mais de um nível de assimilação. Ao mesmo tempo em que demonstra ao espectador o conhecimento que Klaatu e Barnhardt têm daquele assunto, é uma seqüência que mostra a frieza dos planos de Klaatu em liquidar a Terra – provando isso através de uma fórmula matemática.

Muito se fala das atuações impassíveis de Keanu Reeves. Dizem que ele não é capaz de fazer expressões muito diferentes, que possui um rosto sem emoção. De fato, é assim que ele aparece em O Dia em que a Terra Parou. Curiosamente, o que era um defeito em outros personagens, aqui vira uma qualidade; afinal, Klaatu vem de outro planeta e não tem muita experiência com emoções humanas. Melhor que a atuação de Reeves, ou pelo menos mais expressiva, é a de seu robô, Gort. Aquele bloco de metal preto, que destrói qualquer coisa que o ataque, tem um único olho vermelho. Um ciclope. Em determinado momento, quando um cara do governo americano entra na prisão onde esse robô está, Gort, aparentemente domado e inofensivo, apenas segue a caminhada desse agente pela sala, com seu olho-feixe-luminoso-vermelho. Só esse fato já deixa todo mundo ali morrendo de medo. Grande atuação.

Já o garoto, Jacob Benson (Jaden Smith, filho de Will Smith), não passa de um apanhado de clichês irritantes. Quando ele percebe que Helen está querendo ajudar Klaatu, o alienígena procurado pela polícia, Jacob reproduz sua vida dentro daquele joguinho, e só pensa em matar o inimigo. Além disso, para enfatizar a “diferença” entre ele e a madrasta, o menino repete um monte de vezes “não é assim que meu pai, militar, faria”. A tensão entre os dois é tão inexpressiva quanto a cara de Keanu Reeves. O que resulta num clímax pouco crível, quando Klaatu, a partir da relação daqueles dois, percebe que há amor (?) inexplicável entre os humanos. O que poderia surgir a partir de um momento sensível, aparece numa cena forçada, com musiquinha melosa ao fundo.

Fora tudo isso, Derrickson não mostra nenhum controle ou lógica na sua narrativa visual. A câmera treme, se mexe, dá piruetas. Nada disso tem muito propósito criativo. São apenas tentativas nervosas de captar imagens “atraentes”. Até nisso ele falha, já que poucos enquadramentos se mostram narrativamente efetivos. Os insistentes closes nos rostos bonitinhos dos personagens também não ajudam. A fotografia, em cores escuras, esboça criar uma ambiência melancólica, de desamparo, que condiz com parte do filme. Mas a quantidade de aspectos negativos – como ainda as elipses que invariavelmente envolvem programas jornalísticos, para colocar os espectadores a par do que está acontecendo, ou a música barulhenta que não agrega em nada – tira qualquer força que esse artifício possa ter no fortalecimento da película. Quando estiver na fila do cinema, não pense duas vezes: não veja.

3 comentários:

bells disse...

acho que o robo tinha mais de 4 metros de altura!
realmente é um filme ruim, mas tem um etezinho bonito né :p

Lidianne Andrade disse...

vc fez o comentário que um amigo meu fez: quem mundo é este em que só tem cientistas atléticos? rsrsrs

eu concordo com a maioria que reeves mal tem expressao. nem ele transando em Matrix mostra algo de diferente na tela, aafff.

sem comparações com o primeiro filme, ne? nem precisa!

como sempre, tu arrasa no texto!

Bjos!

osmario m disse...

ainda não li esta tua crítica. Lerei. Só achei engraçado vc ter comentado "nunca ter visto um filme tão dolorosamente ruim", heheheh.

Abraços.