domingo, 1 de fevereiro de 2009

Anjo do Mal



Os protagonistas dos filmes de Samuel Fuller são, geralmente, sujeitos avessos às regras ou às autoridades. Pessoas esquentadas, que, invariavelmente, são incapazes de resolver problemas na base da conversa. Preferem logo cair na porrada. Esse clima nervoso é um reflexo da personalidade esquentada do próprio Fuller, cuja definição de cinema é, nesse sentido, bem reveladora: “Um campo de batalha: amor, ódio, ação, violência, morte – numa palavra: emoção!”. O eixo temático de suas obras quase sempre gira em torno de tramas policiais, westerns, ou mesmo filmes de guerra – gêneros bons para explorar essa definição. Mesmo quando parte para o drama mais denso – como em Paixões que Alucinam (1963) ou O Beijo Amargo (1964) –, sua visão de mundo enérgica e nervosa constrói uma ambiência muito particular. Em Anjo do Mal (Pickup on South Street, EUA, 1953), Fuller une todas essas nuances numa trama simples e vibrante.

O clima nervoso do longa-metragem é endossado a partir de pequenas decisões estéticas, mas visualmente eficazes. As primeiras cenas já denotam as características do cinema de Fuller, com planos entupidos de gente, rostos marcados por suor, cortes secos e câmera móvel. Esses movimentos não são delicados, como os de Kubrick em Barry Lyndon, por exemplo, com travellings lentos e reflexivos. As mexidas da câmera de Fuller são carregadas de energia. Agregam tensão e claustrofobia, quando, por exemplo, se aproximam abruptamente dos rostos dos personagens, quando eles ouvem alguma notícia importante. Ou mesmo para estender a duração de um plano, com intuito de esticar a apreensão dos personagens.

A trama, ao melhor estilo hitchcockiano, gira em torno de um Macguffin. O mestre do suspense utilizou em vários filmes esse artifício narrativo – como Interlúdio (1945), Intriga Internacional (1959). Basicamente, é quando os desejos e ambições dos personagens são guiados por algum objeto (ou pessoa) que não tem nenhuma importância para os espectadores. Mais ou menos como a relíquia de Falcão Maltês (1941) ou o conteúdo da maleta de Pulp Fiction (1994). Neste trabalho de Fuller, o Macguffin é corporificado num microfilme muito importante para a polícia e para um bando de comunistas, mas não para nós que assistimos à película. Em momento algum o conteúdo desse filme é explicado aos espectadores. E nem por isso a trama fica frouxa – não importa saber o que danado é aquilo.

Anjos do Mal envolve agentes do governo americano e espiões comunistas, com esses dois grupos procurando o tal microfilme. Uma mulher, Candy (Jean Peters), foi indicada por um dos comunistas a levar esse objeto para algum chefão. Ela não sabia o que carregava. Dois oficiais americanos a seguiam. Na primeira cena, sem diálogos e muito bem editada, os cortes rápidos guiam os olhares do espectador por esses três personagens. Aí entra o elemento que causa uma ruptura nesse mundo político: o batedor de carteiras Skip McCoy (Richard Widmark). A partir de planos-detalhe que indicam a leveza dos dedos de McCoy, os espectadores o vêem roubando a carteira da moça, em pleno metrô lotado, aos olhos dos dois agentes. A partir daí, a trama vira um jogo entre as pessoas do governo americano contra os comunistas, em busca de McCoy, para recuperar o filme.

Skip McCoy parece sintetizar a visão de mundo de Fuller. Ele não está nem aí para essas questões políticas. Quando percebe o valor do que roubou, não se inflama diante das ameaças de “traidor” por parte dos policiais, que logo descobrem que foi ele o autor do crime. Ele decide que vai vender o microfilme a quem pagar mais. Pede R$ 25 mil para os comunistas, sem se importar necessariamente com as “conseqüências morais” desse ato – ser considerado um traidor da nação, algo que alguns personagens repetem como se fosse um crime asqueroso. Essa escolha é corajosa por parte de Fuller, principalmente quando, naquela época, o senador McCarthy promovia uma verdadeira caça às pessoas que trabalhavam no cinema e tinham tendências comunistas.

Há muitos méritos visuais em Anjo do Mal. As posições de câmera refletem o nervosismo dos movimentos, filmando em plongée ou contra-plongée os personagens, dependendo da relação de poder entre eles. Fora isso, são cenas criativas e instigantes. A violência entre as pessoas rende várias brigas, até mesmo contra mulheres. Sobre as personagens femininas, há uma, Moe (Thelma Ritter), que também parece ser imbuída da percepção de mundo de Fuller. Ela não se intimida em “vender” à polícia seus contatos no submundo criminal (é assim que os oficiais chegam ao nome de McCoy). Sua explicação para isso, numa conversa sincera com Candy, serve como comentário social de Fuller, sobre dificuldades financeiras. Talvez por essa simpatia pela sua personagem, a morte de Moe seja o único momento em que a violência não é gráfica, e sim simbólica. Antes de ouvirmos o tiro, a câmera se desloca e enquadra uma radiola. O fato de a agulha não tocar mais o disco indica o final da vida de Moe. Uma delicadeza não muito típica no cinema de Fuller, mas bastante sintomática.

Anjo do Mal tem um vigor típico de um cineasta no início de carreira – o que não é bem o caso, afinal esse é o sexto filme de Fuller, fora outros como roteirista. Os personagens não são exatamente profundos, parecem estar ali para servir como peças alegóricas para comentários sociais, ao mesmo tempo em que funcionam como entretenimento. O jeito enérgico do cineasta foi repetido, com mais maturidade, em outros filmes – principalmente nos já citados Paixões que Alucinam e O Beijo Amargo. O tempo mostrou que ele aperfeiçoou sua visão cínica da sociedade, seus comentários fortes sobre a vida norte-americana. Mas nem por isso Anjo do Mal pode ser considerado um Fuller “menor”, ou qualquer outra alcunha depreciativa. Há neste trabalho muitos dos méritos narrativos e visuais que fariam de Samuel Fuller um dos cineastas americanos mais celebrados.

1 comentários:

Lidianne Andrade disse...

eu te indiquei a um premio, visse!bjos!