Liguei a TV para ver se tinha algum filme legal. Quase nunca acho algo que preste, mas fico nessa busca só para passar o tempo. Vi que Ratatouille havia começado há dez minutos. Só que sofro da mesma neurose de Alvy Singer, personagem interpretado por Woody Allen em Annie Hall. Não gosto de assistir a um filme que já tenha começado. De qualquer forma, como é uma película que eu queria rever, comecei a assistir.
O crítico gastronômico do filme, Anton Ego, é a representação de todos os clichês caricaturais que rodeiam a profissão. É refinado, irônico, frio e mal-humorado. Sua casa sempre aparece na penumbra. Muitos livros e uma maquininha de escrever, algo mais romântico e nostálgico que um computador. E, quando ele começa a construir a crítica, as composições visuais indicam esse poder que Ego desfruta.
Antes do “confronto”, entre o chefe Linguini, marionete do ratinho protagonista e nova sensação do mercado gastronômico francês, e Ego, o tal crítico, há um embate verbal entre os dois. Os jornalistas locais entrevistavam Linguini, daí Ego aparece. Quando questionado sobre ele gostar ou não de comida, por ser... er, magro demais, Ego responde, “Eu não gosto de comida. Eu amo. Se eu não amar, não engulo”. O paralelo com a crítica de cinema é óbvio. E é um olhar respeitoso.
Quando Ego dá a primeira garfada no prato, Ratatouille – daí o título do filme –, ele passa por uma experiência subjetiva inebriante. O sabor leva Ego a uma lembrança esquecida, a memória de quando era um garoto numa casinha bucólica e sua mãe fazia a mesma comida. Quando há o corte para o “agora”, Ego está atônito. Ele derruba caneta, com a qual fazia anotações sobre o atendimento e a refeição do restaurante, perde a postura austera e começa a devorar o prato, como uma criança se divertindo com seu brinquedo favorito.
É uma cena que descreve a subjetividade da percepção de um crítico. Ego ficou maravilhado com o prato, que deve ser gostoso, mas sua análise foi totalmente influenciada por uma experiência do passado afetivo. Se outro crítico gastronômico provasse aquela comida, provavelmente iria achar boa, mas não ficaria extasiado.
quarta-feira, 11 de março de 2009
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4 comentários:
vai ver o prato faria o outro critico ter outra lembrança surreal da sua vida e se extasear. Até porque é um prato típico francês, e por isso até rolou um preconceito qd o ratinho disse q queria faze-lo. As coisas tradicionais das culturas sempre vao levar as pessoas a lembranças. Agora percebi que cada personagem tem um nome especial :P Ego, o critico, Linguini é o nome de um prato, ou de um igrediente de prato e tal :P
hihhihi
ah lembrei! linguini é uma pasta! um tipo de macarrao italiano.
o linguini dispertou o id do ego :P
Bom comentário, Aurora. Ah, e Colette, a namorada de Linguini, é o nome de uma personagem importante de uma série de filmes de Truffaut. Ótima referência ao cinema francês.
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